terça-feira, 9 de outubro de 2012

A simplicidade na Stravaganza


Companhia de Teatro Stravaganza
Com quase 23 anos de vida, trancada dentro de uma garagem, no bairro Santana, ensaia a companhia de teatro Stravaganza. Da rua se vê apenas uma porta enferrujada, trancada com um cadeado grosso, em uma esquina perigosa do bairro Santana. Quando a diretora, uma mulher de cabelos ruivos, abre a pesada porta, é como se abrissem as cortinas de um teatro. O Studio, nome dado pelo grupo para o local de ensaio, é apenas uma garagem, sem extravagâncias, sem luxo, e nem precisaria. Os atores brincam de faz de conta no ensaio, fingem rodar suas saias, fingem ter chifres, fingem ter público, fingem estar na Broadway. O ensaio é enclausurado, sombrio, mas quando as portas se abrem e o grupo sai para a rua, como se abrisse a porta da gaiola para deixar a criatividade e o talento voarem livres como pássaros.
As peças de rua tem uma magia diferente, que aproxima o teatro do circo, o espetáculo já começa na chegada dos atores ao local de apresentação. A primeira semana de abril é o ápice da vida do teatro de rua, no domingo, 10 de abril, o Brique da Redenção foi o palco perfeito para esta comédia que fala de religião, crença, fantasia. Às 11h30min, a rotina de bisbilhotar barraquinhas é interrompida pela chegada de uma comitiva de nove pessoas maquiadas, arrastando um reboque, duas escadas de madeira enfeitadas e barras de ferro.  Eram artistas levando seu cenário itinerante, a cena lembra os antigos circos que traziam trapezistas, palhaços pra o centro das cidades para contar ao público que o circo estava armado. Como num picadeiro, rainha Boracéia, digo Geórgia Reck sobe em uma escada com sua ampla saia vermelha e recebe ajuda do anjo e do diabo, representados por Marcelo Adams e Lauro Ramalho, para erguer as barras de ferro e colocar a cortina multicolorida. Enquanto isso a Escrava pede ajuda à Ave Maria para chamar o público, ato encenado por Sofia Salvatori e Janaina Pelizzon. À alguns passos dali, o galã Rafael Guerra, elegantemente vestido de Rei Herodes, não precisa de muito esforço para parar o público feminino. O tímido, Eduardo Cardoso, vestindo a bata marrom de São José, organiza os instrumentos sonoros e vigia o boneco Menino Jesus que ainda continua dentro da caixa de vestuário.  O ensaiando Fernando Barbosa e Rodrigo Mello Matias chama atenção pela confusão que Matias Cão e João Teté armam em meio as pessoas que passeiam sob o sol escaldante que brilha na Redenção. E faltando poucos minutos para o meio-dia, talvez seja a única vez em que o Anjo Gabriel e Diabo subam juntos na escada para colocar a cortina no alto das hastes de ferro.
Companhia de Teatro Stravaganza
Em meia hora o cenário é montado, os atores maquiados, e o público já esta a postos para ver a peça. Meio dia em ponto começa a peça. Em um lado, um banco do parque foi guardado especialmente para a diretora, Adriane, que chega arfante com sua fantasia juvenil, fazendo companhia o público infantil que ansioso espera sentado no chão na primeira fila. A peça acontece em meio a todo movimento de um domingo de calor no Parque Farroupilha. As crianças que assistem e gritam tentando ajudar a salvar o Menino Jesus do trambiqueiro João Teté. Os saquinhos de pipoca são devorados com ânsia de quem queria matar o personagem, e dos algodões-doces restam apenas os palitos. A imagem do domingo feliz em família é as filhas com olhos vidrados na peça enquanto os pais se beijam em um raro momento em que as crianças ficam quietas. No final do espetáculo, enquanto os atores passam os chapéus pedindo uma ajuda de custo, o público se distribui, o dinheiro é insuficiente para o sustento do grupo, já que eles não recebem patrocínio, mas os rostos dos atores continuam com o olhar de dever cumprido. Mais uma vez a Stravaganza aproximou o teatro de seu público.
O grupo não seria o mesmo se não fosse comandado pela diretora Adriane Mottola, uma mulher de cabelos ruivos e sorriso contagiante, que mantém viva a chama do teatro de rua deste que é um dos grupos mais antigos de Porto Alegre ela está presente na companhia desde o primeiro espetáculo no qual era atriz.  A estreia da peça Shandar e o feitiço de Mungo, em 11 de junho de 1988, marca o início da Companhia, que era dirigida por Luiz Henrique Palese. E assim continuou até a morte do diretor em 2003 e desde então Adriane está no comando.
O público infantil é muito interessado nos espetáculos do grupo, mas o texto não tem adaptações específicas para atrair as crianças, o que demanda um cuidado especial é o local onde as peças são encenadas. Quando na rua, apesar aproximar diferentes públicos, a diretora aponta que “a rua é o local onde todo mundo está, há temas mais adultos que não é possível tratar na rua”.
Hoje o grupo é composto por nove atores e outros colaboradores que são convidados para participar de algumas montagens. Uma das peças mais vezes encenada é a Sacra Folia, que estreou em 2002, uma versão brasileira de um auto de Natal. É a historia da Sagrada Família que erra o caminho ao fugir de Herodes e vem para o Brasil. A comédia de perseguições e confusões assemelha-se com a realidade brasileira, no bom humor e mostra o jeitinho brasileiro de resolver problemas. O ensaio contado anteriormente era para esta montagem que fez parte do Festival de Teatro de Rua 2011.
Desde os ensaios iniciais de uma peça os atores já criam os trejeitos dos personagens. E as roupas improvisadas nos ensaios servem de influencia para a montagem do figurino.  “A gente já esta usando um tipo de roupa, um tipo de sapato, o figurinista vem e olha, vê como são os personagens, vê como são os atores, e monta as roupas usando as ideias que os atores improvisaram”, durante a montagem de um novo espetáculo, a vida da Companhia se confunde com a vida particular de cada ator, é no Studio que os atores passam a maior parte do tempo, e entre um gole e outro de café instantâneo, as ideias surgem.
Companhia de Teatro Stravaganza
A Stravaganza é uma das companhias de Teatro de Rua que mais inspiram novos atores 

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