segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Interatividade na Televisão Digital Brasileira

Artigo

As reflexões sobre Televisão Digital (TVD) no Brasil não são recentes, antes de sua implantação foram necessários anos de pesquisa na área de tecnologia, entretanto a área da Comunicação esteve muito ausente nesses estudos. O que não deveria ocorrer já que não se cria uma tecnologia sem preparar o campo em que ela será utilizada. Como todas as mudanças tecnológicas que tivemos no passado, a digitalização chega para formar uma nova geração jornalística.
No Brasil, grande parte das publicações sobre o assunto analisou os modelos internacionais de modo exploratório, como base para o desenvolvimento de um modelo nacional compatível com nossa demanda e nossa cultura. (Teixeira,2009). Mas há uma falta de estudos para a montagem de programas feitos para a teve digital. O modelo existe, e a interatividade está contando os dias para entrar nas grades de programação, mas e os jornalistas, como estão lidando com esta mudança? Este paper tem o intuito de mostrar como a era digital na televisão vem mudando formatos, e como os jornalistas televisivos estão projetando um novo formato de conteúdo, e como reage o público com esse novo modo de fazer televisão.
O projeto da televisão digital surgiu da demanda de usuários dos novos meios de comunicação, como a internet, que possibilitaram a implantação da interatividade. É necessário compreender a mudança que a sociedade atual vivencia, é quase possível hoje estar em todos os lugares sem se mover por meio da virtualidade – seja por uma tela de computador, celulares ou TVD. Estão aí para comprovar o MSN, os torpedos de celulares, as videoconferências, os videojogos em rede, por exemplo. Esse público digitalizado quer participar mais da televisão e a TVD com interatividade é um bom espaço de participação e visibilidade.
“Televisao interativa pode ser definida como qualquer coisa que torne possível ao telespectador se engajarem em um diálogo com as pessoas que fazem um canal de televisão, programa ou serviço. Mais especificamente, pode ser definida como um diálogo que leva os telespectadores além da experiência passiva de assistir e os permite fazer escolhas ou praticar ações – mesmo que as ações sejam tao simples como preencher um cartão postal e envia-lo pelo correio, ou desenhar uma imagem na tela da televisão.” (Gawlinski, 2003, p.5 - Tradução nossa).



Como estamos em relação ao mundo?
Em 2006, o Brasil adotou o padrão Integrated Services Digital Broadcasting Terrestrial (ISDB-T) como o sistema de televisão digital brasileiro, entretanto anteriormente haviam sido realizadas diversas pesquisas para a produção de um sistema próprio. O melhor projeto nacional de software de interação para Televisão Digital foi o Ginga, desenvolvido pela PUC-RJ e pela UFPB. E apesar de não ser aprovado todo o projeto nacional, o Ginga foi aprovado como sendo o aplicativo mediador da interação digital. O padrão brasileiro é nissei, misto de japonês e brasileiro.
O padrão ISDB, originário do Japão, por ter sido o último dos três padrões desenvolvidos e a ser colocado em uso no mundo, tem tecnologia mais avançada e sendo um produto japonês, tem como alvo o público nipônico que possui muita familiaridade com celulares, o padrão tem como diferencial a portabilidade que permite a captação de sinal digital por aparelhos celulares, tornando a televisão mais presente ainda na vida das pessoas. Se hoje temos estudos de como as pessoas absorvem a programação sentadas no sofá de sua casa, logo teremos de fazer estudo de caso em como as pessoas veem televisão em lugares não comuns anteriormente, como ônibus, trem ou carro.
Mais uma novidade é a TVDi, televisão digital interativa. Mas o que é interatividade? Segundo Pierre Levy “o modelo da mídia interativa é incontestavelmente o telefone”, já para Lauro Teixeira “entende-se como mídia interativa toda aquela que se desprende do modelo “um para muitos”, permitindo certa participação do receptor”. Portanto além de usar o celular para ver televisão no ônibus, podemos, por exemplo, usar a televisão para responder enquetes usando apenas o controle remoto.
Está surgindo uma tecnologia convergente, que dialoga com celulares e dispositivos móveis em ônibus e trens, independente da velocidade e com nenhum prejuízo ao conteúdo audiovisual e a interatividade. Contudo as reflexões sobre a produção de conteúdos jornalísticos, ainda são principiantes, o que se encontra na literatura do gênero são experiências isoladas de pilotos de telejornal brasileiro usando a tecnologia SBTVD-T, nas empresas de televisão e nas faculdades de jornalismo de todo o Brasil. As grandes emissoras estão aguardando para colocar em rede um telejornal em HD, enquanto canais como a Rede TV já veicula programas nesse formato. O que preocupa é a inércia de muitos profissionais de televisão, sobretudo jornalistas, quanto à preparação para a entrada da interatividade nos programas, na verdade não se sabe como nem quando efetivamente entrará em vigor esse sistema de resposta do público.
No Brasil tudo ainda esta em período de testes, o padrão ainda é um akatian, um japonesinho que ainda está aprendendo a dar os primeiros passos. E pela inexperiência, ao montar programas pilotos, baseia-se nas produções da TV BBCi do Reino Unido. Esta que tem investido em programas interativos, já há algum tempo, já que na Europa o sistema digital já esta implantado há mais tempo. A BBC é atualmente a principal referência para outros produtores de conteúdo televisivo no mundo todo, na era digital não seria diferente.
                                                                             
Afinal como funciona a interatividade?
A interatividade na tevê digital pode ser com ou sem retorno. Sem o canal de retorno, o que é o caso das tevês a cabo atualmente no Brasil, no qual o usuário recebe em seu aparelho receptor de sinal um pacote de aplicativos e pode dispor da escolha e formatação de conteúdo que consome por meio de alternativas que o emissor propõe, podendo ser um ângulo diferente de câmera em um show, ou informações extras em um programa de entretenimento, ou apenas um guia de programação. Distinto de quando há canal de retorno, ausente no Brasil, que permite ao usuário participar efetivamente da programação, contribuindo para a formação dos valores, seria o envio de mensagens ou vídeos, jogos on-line, comunicação com órgãos governamentais, tudo usando apenas o controle remoto da televisão.
Talvez a interatividade esteja “engatinhando” no Brasil porque o público já se acostumou a pegar os extras na internet, responder enquetes de programação por e-mail, SMS, ou no site do telejornal. Alguns estudiosos afirmam que o twitter já ocupou o papel dessa interatividade. Se para Levy a interatividade maior era o telefone, hoje podemos afirmar que a interatividade é o twitter. Basta verificar os perfis dos jornalistas e apresentadores de televisão, que recebem quase que instantaneamente as respostas do que esta sendo dito ao vivo.
Mas o que precisa ser feito quando for incluída de vez a interatividade, e não for mais necessário usar o laptop em frente à televisão, porque o controle remoto executará sozinho essa interatividade. O jornalismo é um campo fértil para o uso da interação digital, por tratar de realidade, e mexer diretamente na vida das pessoas. Se for realizado um bom trabalho de vinculação emocional, não ao extremo sensacionalismo que ocorre hoje, mas a repercussão de noticias de uma forma um pouco mais humanizada. Um caso recente na mídia é o atropelamento de um grupo de ciclistas em Porto Alegre, mais um caso de massificação da tragédia, no telejornal local as imagens de um cinegrafista amador foram mostradas apenas no dia seguinte ao acontecido, se a interatividade já estivesse atuante, esse caso poderia ter tido na televisão a dimensão que teve no twitter.  Já que, a televisão é o meio de comunicação mais popular, o atropelador talvez não tivesse sido liberado do presídio central 40 dias após o crime. Seria a interatividade ajudando a abrir os olhos cegos da justiça? Ou apenas o uso efetivo de um meio de comunicação por seus telespectadores, sendo então a voz do povo.
Na verdade a interatividade já existia na televisão brasileira antes da digitalização. A década de 90 foi um período de inserção de interatividade na programação ficcional, como é o caso do programa Você Decide, da Rede Globo, ou de programa de entretenimento como o Batalha de Clipes, da MTV. No primeiro, era exibido um episódio dramático e/ou polêmico e que poderia ter dois finais, o público votava o final por telefone, o segundo programa era dois clipes que tocavam ao mesmo tempo, em tela dividida ao meio, por telefone o público votava e via o final do clipe mais votado. Um estudo americano de 2001 sobre “Como as pessoas usam a televisão interativa”, da Statistical Research, mostrou que 72% dos americanos que usavam a TV digital disseram que não se interessam pela interatividade oferecida por programas de televisão. No Brasil, há grandes chances da interatividade engrenar, se Você Decide e muitos outros programas esportivos que divulgam interativa online recebem grande quantidade de respostas, com o simples uso do controle remoto tem tudo para dar certo.

Pode-se prever mais um período jornalístico?
Os jornalistas estão em um período de mudança de plataforma, e que os deixa confusos e desamparados em alguns momentos, já que ao buscar na literatura do gênero só encontram exemplos importados e de uma realidade diferente da de seu país. Os pesquisadores Alan César Belo Angeluci e Cosette Espíndola de Castro, Universidade Estadual Paulista – UNESP, apontam algumas modificações, necessárias de serem realizadas, e outras são quase que previsões do apocalipse. No artigo publicado pela revista PJ:BR - Jornalismo Brasileiro. Fala da desconstrução da estrutura tradicional de um telejornal, o que certamente causará um impacto, essa mudança segundo eles acontecerá muito em breve, os conteúdos telejornalísticos da TV aberta e gratuita brasileira deverão mudar de visão. E a mudança no mercado audiovisual mostra que a digitalização traz a duvida de o que os jornalistas têm feito para repensar o modelo analógico do fazer telejornalístico?  Atualmente fala-se mais da imagem do que do conteúdo em si, parece futilidade, mas uma das primeiras mudanças na vida dos jornalistas de televisão é que os pancakes deram lugar a uma maquiagem muito mais espessa para correção das imperfeiçoes de pele. 
De acordo com os pesquisadores, o jornalista precisa estar preparado para essa desconhecida nova forma de produção de conteúdos, não somente em termos de domínio tecnológico, mas também na forte presença das formas hipermidiáticas e interativas da comunicação em rede. Estimular profundas mudanças estéticas, simbólicas e sociais, afetando os níveis discursivos da informação televisiva. A questão da convergência dos meios chama atenção para as “narrativas transmidiáticas”, termo criado por Henri Jenkins, americano professor de comunicação. A dificuldade é que na TV analógica o papel do jornalista era informar e interpretar os fatos de maneira que fosse mais bem entendido em relação a seu impacto na sociedade, hoje o profissional interconectado está diante da função de mediar às múltiplas informações que recebe na hora de construir a notícia, já que essas informações chegam também do público e não apenas do campo da produção. É necessário aumentar a checagem de informação precisa ser, não apenas por duvidar da fonte, mas porque o público não é o mais capacitado para investigar. O jornalista precisa estar preparado para aprofundar conteúdo, apurar fatos mais rapidamente e investigar como há muito tempo não se fazia. O público já possui a informação, o que ele precisa é a interpretação, o complemento, o conteúdo. O jornalista é o produtor de conteúdo e não apenas o emissor de notícias.
Segundo o artigo da UNESP, A práxis na televisão digital - O despertar do hipertelejornalista - o diferencial do hipertelejornalista está em criar uma nova organização da informação, novos fluxos de acesso para respaldar a qualidade das informações, superar esse status de simples narrador de fatos. “Baseado nos novos sistemas de informação, ele organiza a informação por meio da unidade – o link – e combina um conjunto muito mais amplo de fatos e circunstâncias contextualizados por meio de uma hierarquia.” O jornalista recebe neste artigo o prefixo hiper porque agora além de ser o guia de informações noticiosas no ciberespaço, independente da plataforma tecnológica, pois ele terá que desenvolver conteúdos digitais interativos para uma ou várias plataformas convergentes entre si.
Mais um termo novo são as narrativas transmidiáticas: informação mais fluída tem o objetivo de se dar ênfase a oferta de dados, texto, áudio e imagem integrados. O futuro jornalista será muito mais baseado na interatividade e no hipermídia, e que significa também a busca para propiciar a audiência uma experiência mais contextualizada, ajudando-a a interpretar os fatos narrados.
Os profissionais de televisão precisam adotar as estratégias das redes sociais da internet na TVD. Acessando um canal de telejornal além da exibição do programa, uma série de possibilidades se abre os telespectadores, através de contato com os apresentadores, participação em enquetes e fóruns, acesso a notícias recentemente atualizadas. Essas participações podem ser medidas e assim servir de base, por exemplo, para a medição de índices de audiência.
O jornalista é o exemplo de profissional que não pode jamais estar desatualizado, no futuro próximo será fundamental que esse novo produtor de conteúdo conheça as ferramentas de software gráfico, o uso de dados provenientes do processo de interatividade, as funcionalidades do middleware Ginga e as possibilidades de interatividade que ainda estão por ser descobertas. O conteúdo, agora interativo, vai partir da lógica dos hiperlinks, utilizando áudio, imagens e dados em separado ou juntos. Isso tornará a programação muito mais complexa no campo da produção, mas muito mais interessante e atraente para as audiências.
Neste mesmo artigo, em tom apocalíptico os autores falam do fim da linearidade no processo de produção telejornalística. Profetizam o fim da estrutura convencional de uma redação de teve: pauteiros, produtores, repórteres e editores, todos vão mudar de função. A digitalização será o fim do conceito de deadline jornalístico relativiza-se em tempos de uma comunicação cada vez mais instantânea, cada vez mais em tempo real, em que as informações são constantemente atualizadas.
“A estrutura das notícias – em forma de notas simples, notas cobertas, boletins ou reportagens – já estão sofrendo mudanças em sua seqüência lógica para viabilizar as experiências interativas e hipermidiáticas. Se antes o texto de TV não era para ser lido e sim somente ouvido, configurando uma das principais características do telejornalismo analógico – a instantaneidade – com as novas tecnologias essa regra se torna mais flexível. As possibilidades de uso de dados adicionais exigem uma revisão estética e narrativa dessas estruturas.”
Por outro lado, as produções para TV também exigirão um nível de detalhamento até a pouco impensado, devido à qualidade da imagem digital. Os roteiristas deverão pensar em novos conteúdos, tendo como fundamento a possibilidade de participação dos usuários através do canal de retorno e a convergência entre plataformas digitais. Gil Barros propõe três categorias para os aplicativos de teve digital:
- TV expandida: em que o aplicativo interativo esta vinculado a um programa de tevê, como, por exemplo, as enquetes e chats de um reality show.
- Serviço interativo: em que o televisor passa a servir como um terminal de acesso a conteúdo que não possuem vínculos diretos com a programação da teve, por exemplo, teve banking, previsão do tempo.
Infraestrutura: interfaces e mapas de navegação que dão acesso ao conteúdo, mas que não são o conteúdo em si. O único que já faz parte da televisão paga no Brasil. São os guias de programação e menus.
André Barbosa Filho, diz que a própria noção de grade televisiva deverá sofrer mudanças substanciais, tornando-se mais flexível. O autor propõe que as grades poderão ser acessadas e abertas como links, permitindo ao público que possua interatividade com canal de retorno seguir as propostas de roteiros alternativos de cada programa.

Concluímos que os apontamentos sobre a entrada da interatividade na televisão ainda deixa os jornalistas um pouco sem base para a produção de conteúdo adaptativo para esse novo aplicativo. A incerteza de quando finalmente teremos o público interagindo com os produtores de conteúdo torna desnecessária a pressa que hoje é imposta dentro das universidades, aos então futuros jornalistas. É preciso sim ter um conhecimento avançado, mas as incertezas desprestigiam esses profissionais além de seu tempo. Os jornalistas intelectualmente estão preparados para enfrentar essa nova etapa. Quem não está preparado é os sistema ISDB. É chavão dizer, mas falar em interatividade como um novo paradigma, uma nova era é fazer tempestade em copo d´agua.
Certamente a interatividade torna os meios de comunicação muito melhores, mas as previsões mostram que não passarão de extras na programação. A interatividade também é um caminho ótimo para os serviços públicos, poder fazer declaração de imposto de renda, buscar dados do IBGE, sentado no sofá usando apenas o controle remoto são facilidades na vida de todos. Mas o fazer jornalismo, a busca de informação, a investigação, não isso não vai mudar apenas por ter um novo canal de envio de dados.   
E quanto a adaptação do público, é fazer uma afronta a Dominique Wolton, que afirma que a televisão evidentemente os influencia, mas todas as pesquisas, ao longo de meio século, provam que o público sabe assistir às imagens que recebe. O publico jamais passivo, nem neutro. “O público filtra as imagens em função dos seus valores, [...] o público é inteligente” (Wolton, 2006, p.6). Antes da interatividade, as respostas saiam da boca dos telespectadores diretamente para os ouvidos de quem era seus companheiro de sofá, em breve, os telespectadores poderão dar boa noite diretamente ao casal apresentador do Jornal Nacional. Mudam os formatos, mas a fidelização de público independe dos aplicativos usados.


Referências bibliográficas:
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CIRNE, L.; FERNANDES, M.; PÔRTO, E. “Perspectivas da Interatividade no Telejornalismo da TV digital brasileira”. In: SQUIRRA, S.; FECHINE, Y. (Org.). Op. Cit. ANGELUCI, Alan César Belo. O despertar do hipertelejornalista. Revista PJ:BR - Jornalismo Brasileiro Nº 12 - Nov. 2009, acessível em http://www.eca.usp.br/pjbr/arquivos/artigos12_f.htm visualizado em 10/04/2011.
Teixeira, Lauro. Televisão Digital, interação e usabilidade. 2009.
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LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.
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ANGELUCI, Alan César Belo. O despertar do hipertelejornalista. Revista PJ:BR - Jornalismo Brasileiro Nº 12 - Nov. 2009, acessível em http://www.eca.usp.br/pjbr/arquivos/artigos12_f.htm visualizado em 10/04/2011.
Revista FAMECOS, Porto Alegre • v. 17 • n. 1 • p. 65-73 • janeiro/abril • 2010.

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