segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Produção leiteira em crescimento

(matéria publicada em Revista Expodireto Cotrijal 2014) 

Com o objetivo de agregar conhecimentos à cadeia produtiva leiteira, foi realizado, durante a Expodireto Cotrijal, o X Fórum Estadual do Leite. Segundo o presidente da CCGL Caio César Vianna, “a atividade é o agro com maiores ganhos tecnológicos e de produtividade, atualmente. E vem atraindo grandes investimentos empresariais, inclusive ganhando mais espaço na pauta de exportações brasileira. Vianna também elogiou a todos os técnicos, por serem o principais responsáveis por mudar o conceito da atividade no Brasil. “A equipe técnica da CCGL está intimamente ligada aos produtores, para oferecer todo o suporte necessário”, garantiu.

Outro meio de acompanhamento é o Programa Leitec, um manejo sanitário de bovinos de leite desenvolvido pelo Sistema Senar-Farsul. Composto de 11 módulos, o programa ensina as tecnologias da atividade leiteira e oferece acompanhamento de quadro horas para casa propriedade. O diretor técnico do Senar-RS, João Augusto Telles afirmou  que “o Senar-RS trabalha para ensinar os produtores a obter leite com mais qualidade e lucratividade”. Atividades como essa são essenciais para a otimização da produção leiteira.

Conforme o superintendente de Produção Agropecuária da Cotrijal, Gelson Melo de Lima, “a atividade leiteira é fundamental para a economia de subsistência da região, principalmente para as propriedades que têm um número limitado de terras” Também estiveram presentes o vice- presidente da CCGL, Darci Pedro Hartmann; o gerente de Suprimento da CCGL, Jair Melo; o gerente de Produção Animal da Cotrijal, Rene Granaro e o diretor do Senar-RS, Jorge Rodrigues.
  
O painel Desempenho e perspectivas da cadeia do leite no sul do País para os próximos anos foi ministrado pelo pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Lorindo Stock. O pesquisador fez uma retrospectiva das condições vividas pelos produtores de laticínios, na última década. Segundo ele, em 2004 o lácteo brasileiro tinha uma imagem deturpada no exterior, representando falta de higiene. Apesar da baixa demanda a importação era necessária, pois o preço não era competitivo ao produtor nacional. No período de 2004 a 2008 havia excedente de leite e o País tornou-se autossuficiente. Havendo alta demanda internacional e a exportação foi possível pela primeira vez, naquele momento.

Já no período pós 2009, o aumento da renda incentivou o consumo interno, incluindo mais de 60 milhões de consumidores, tornando o Brasil deficitário em leite. Essa diminuição da pobreza ocorreu também em outros países como: Índia, África do Sul e Rússia. Esse aumento do poder de compra gerou falta de alimento animal e o consumo de proteína aumentou no mundo todo encarecendo o preço final do produto. A ingestão de lácteos aumentou, assim como o de carne. Todavia os grãos para alimentação animal são os mesmos para bovinos, suínos e aves. “Não sabemos se a demanda vai continuar crescendo à medida que o governo distribuir mais renda, mas essa é uma projeção”, segundo Stock. O consumo per capta de laticínios aumentou em 50%, e não deverá cair porque o paladar se acostuma facilmente os lácteos processados, como queijo e iogurte. Estes produtos que precisam de mais leite para serem produzidos. Aposta-se que nem mesmo com queda na renda o consumo não cairá vertiginosamente.  Todos os países buscam autossuficiência em laticínios, portanto, o mercado deverá seguir flutuando conforme as demandas regionais.

leite é um produto em que os movimentos de demanda acontecem com rapidez e a produção reage vagarosamente, causando oscilação de mercado. “O preço tem sido recorde nos últimos anos pela explosão de vendas no mundo. E o Brasil é muito sensível às demandas”, aponta o pesquisador. São as importações que garantem a estabilidade dos preços. Contudo, é preciso estar atendo as oportunidades de exportação. Stock explica que “no pós 2009 o Brasil teve preços acima dosmundiais, dificultando a exportação, Mas em 2013 os preços mundiais subiram e o brasileiro se manteve, favorecendo a exportação de leite e a importação de milho”. Desta forma 2013 foi o melhor ano, e a tendência é que em 2014 o preço se eleve novamente. Ainda conforme o palestrante, a produção leiteira tem fácil adaptação para o clima do sul. E ao fazer uso das estratégias adequadas de nutrição animal o custo de produção diminuirá.

O primeiro passo para o sucesso  é o produtor conhecer sua realidade. Segundo o consultor da Transpondo Pesquisa, Treinamento e Consultoria Agropecuária, Wagner Beskow, são poucos osprodutores que conhecem seu custo de produção. “O dinheiro que sobra é um indicador distorcido desse lucro. Muitos produtores acreditam não lucrar, mas consomem tudo na cooperativa: alimentos, ração, etc. Ao final não sobra dinheiro nenhum, mesmo,  mas a venda do leite paga todas as contas”, defende Beskow.

Em seu painel O que precisa acontecer no campo para que o leite seja competitivo frente a outras alternativas produtivas, o consultor apresentou valores comparativos de lucratividade entre soja e leite. Muitos produtores ainda insistem em plantar a leguminosa, então o aconselhamento de Beskow foi manter a produção de leiteira ao menos no inverno. “Deixar de produzir leite e partir apenas para a soja não é favorável nem mesmo nas pequenas propriedades”. Nas fazendas com bovinos superprodutivos, e custo de produção diluído, a soja deixa de ser comparativa e perde o valor agregado. Lembrando que as despesas podem ser reduzidas com o aumento do número de animais produtores somado à otimização da produtividade por ruminante e, ainda, aos menores custo de alimento. Sabe-se que uso de silagem nutritiva eleva a produtividade, mas seu custo precisam ser planejado. “Para administrar a propriedade é preciso ter como base o menor custo de produção e tentar chegar nesse objetivo sempre”, recomenda o Beskow.

O consultor demonstra que o teto de produção no Estado é de 30 mil litros por hectare, em propriedades com pasto mais suplementação animal. Ao comparar o preço da soja com rendimento de 80 sacas/ha com o do leite de 30 mil L/ha, o plantio do grão é desvantajoso. “No leite as flutuações climáticas não causam perda significativa da produção, no caso da soja isso acontece a cada quatro ou cinco anos” demonstra Beskow. Um ponto favorável da rotatividade  entre leite e soja, que a leguminosa auxilia no manejo de pragas nas pastagens. Outra vantagem do lácteo é a reproduçãodos animais, “nem todos os ganhos são percebidos. Nas propriedades leiteiras, as máquinas e equipamentos se degradam, mas o rebanho é sempre um investimento”, aponta o consultor


Um trabalho em equipe

Para administrar a família e os funcionários é preciso saber dosar: liberdade, responsabilidade e valorização das pessoas. “Um reconhecimento, muitas vezes, é melhor que um aumento de salário ou um beijo na esposa”, aconselha Beskow. O palestrante salientou que aceitar ideias e reavaliar métodos são de total importância em uma propriedade familiar, pois “leite é família e família unida, mesmo nas cooperativas”. A qualificação profissional dos envolvidos também foi abordada pelo consultor.

Um relacionamento saudável oportuniza o sucesso no mercado leiteiro. Bem como propor metas cabíveis, “o consumo deve ser dentro dos limites de retorno para fazer sobrar dinheiro” ressalta ele. Uma fórmula simples de poupar , conforme o consultor, é colocar na poupança 10% do valor da venda do leite em período de entre safra, e 15% no momento em que os ganhos são maiores. “Nós saímos de uma era onde o produtor era um coitadinho que trabalhava para sobreviver. Hoje ele é um profissional, precisa saber administrar seu patrimônio e tem clareza de suas despesas e ganhos”, alerta Beskow.

Dentre as recomendações repassadas pelo palestrante, citamos  a importância do aprendizado de lidar com sentimentos e frustrações, “quem entrou no mercado leiteiro entrou em um montanha russa tem que saber se segurar nas flutuações emocionais e de preços”, defende ele. E por fim, o aconselhamento primordial dado por Beskow é: “não façam financiamento com base no preço teto dosetor. Use o ganho mínimo, pois, quando o preço cair não ocorrerão problemas estruturais e perda doinvestimento”.  

A produção das vacas está aumentando. Os maiores produtores de leite, com mais de 50L/dia, são os que mantêm a estrutura de produção no País. Enquanto os pequenos não atingem nem 10%. Os pequenos produtores necessitam de políticas públicas além das desenvolvidas pelo Ministério da Agricultura, conforme Lorindo Stock. Para seguirem produzido sua subsistência e não abandonarem o campo, uma estratégia de aproveitamento da pequena propriedade é realizar a pecuária extensiva também em áreas de preservação permanente (APP). O assessor técnico do Sistema Farsul, Eduardo de Mérico Figueira Condorelli, expôs essa ideia no painel: Como superar os desafios e atender ao cadastro Ambiental Rural.

Conforme Condorelli, o ponto principal a ser esclarecido é que “as áreas de preservação permanente (APP) não são intocáveis”. A nova Legislação Ambiental determinada que os locais que estavam produzindo antes de 22 julho de 2008 poderão continuar com atividade, enquanto as áreas que naquela data estavam intactas, não poderão mais ser mexidas. O motivo pelo qual este tema foi incluído em um fórum de debate sobre produção leiteira é que está autorizada a realização de atividades agrosilvopastoris, de ecoturismo e de turismo rural nas APPs. E conforme previsto, a entrada de homens e animais para consumo de água está autorizada nesses locais. Assim como atividades de baixo impacto ambiental, como a pecuária extensiva, inclusive nas áreas entre 25º e 45º de inclinação.

O Programa de Regularização Ambiental irá negociar com os produtores as áreas de preservação a serem recuperadas. Entretanto, Condorelli adianta que “as residências e benfeitorias podem manter-se onde estão, independente se o local é de APP ou não”. Quanto ao cadastramento, o assessor técnico conclui que “o Cadastro Ambiental Rural será uma ferramenta moderna que trará dinamismo e agilidade na realização de outorgas e liberações ambientais”, o procedimento facilitará, por exemplo, a liberação de sistemas de irrigação. Cabe ressaltar, que demais regras de regularização deverão ser consultadas diretamente no Código Ambiental Rural, as dúvidas poderão ser solucionadas pelos técnicos do Senar de sua região.

Nenhum comentário:

Postar um comentário